quarta-feira, 16 de abril de 2008

2046

Trens são a única forma possível de estar parado e o mundo seguir pela janela. E as coisas mesclam-se às memórias, o trem as faz desfilarem junto com a paisagem, pinçadas aqui acolá. E ainda dá para ver o passado preso dentro da luz que vem de fora, atravessa a janela, bate na parede e reflete nos olhos. São os raios que respingaram na vegetação do lado de fora e por isso, apenas por isso, são parte do passado, quando o trem estava centímetros atrás. Nosso passado recente, o remoto ficou na última estação, quando o trem parou e eles, os raios, se misturaram no frenesi atemporal. Também é possível ver o futuro, mas não dentro do trem, acima dele, por fora. O futuro passa por fora, basta estender a mão e contar os segredos nos buracos das árvores da montanha cobertos de lodo.

Por fim ainda há quem consiga estar suspenso entre eles. Trens, janelas, luzes e observâncias. Mas aí...









...aí...

terça-feira, 8 de abril de 2008

Sinestesia

E agora tudo são ondas, e o sol nascerá nalgum lugar. Mas esperem... Virginia me recriminaria. Todas as virgineas me recriminariam...


E você acha que vai me dizer algo num futuro? E eu irei ouvir atentamente. Enquanto as ondas lançam espumas, pois é isso que elas fazem, em praias. Todas as palavras são metáforas de si mesmas. E ainda assim, a criança que fui um dia, não desceu a ladeira da casa do meu primo bem mais velho, o rugoso, o lacônico, o sem sobrancelhas. Não desci ainda aquela ladeira, só pelo medo de berrar e acordá-lo dos silêncios dele. Então eu fui até a rua sete de setembro ver minha tia ser assassinada a pauladas pelos meninos de rua, somente porque ela escolheu, tanto quanto o vizinho do meu avô também escolheu derreter-se por entre os anos como o leite dos avelós que cercavam a casa dele, na ocasião, moribundos pela morte da mulher, derramados nos pés das galinhas, as que sangravam e cacarejavam desesperadas de noite, sem ninguém para ouvir. Ninguém está para ouvir as árvores que derretem. E o engenho cheio de fantasmas mudos e transparentes, estátuas brancas, cada uma com seu balãozinho de frases. Sentados na piscina de plástico, nenhum de nós, exceto os coqueiros e lagartixas, prestavam atenção ao que elas diziam. Anos e anos que estavam ali, conversando entre si e com os cds emparedados no porão, como as freiras mumificadas em barro de alguma sacristia paulista. Correndo loucas pela avenida cumprida, cumprindo a sina da parede. E o país do impossível dorme agora, deitado ao meu lado, e faz sons, pois é impossível que a Pérsia, terra de colinas brancas, não faça sons quando o vento do Mar Vermelho lambe suas colinas brancas. Terra de colinas macias e mel que escore para fora dos olhos da terra. Nossos olhos, secos, vazios, obscuros e misteriosos. Pérsia. Será possível que um país inteiro venha a viajar, venha a se transpor para outras terras? Que lugar será esse, capaz de albergar um país inteiro? Tenho pena dos seus terrenos, dos seus territórios, invadidos, pois, por um país inteiro. E as ondas vêm, vêem e voltam. Daquela outra janela você verá tudo ocorrer, não dessa, mas daquela. Não daqui, mas de todos os lugares, pois é preciso se espalhar e estar em todos os lugares ao mesmo tempo, sinestésico, atômico, supercórdico. Fora disso não há raciocínio plausível, nem argumento estável, e nem queremos que sejam... Os argumentos; quero dizer. E você ainda acha que me é possível ouvir seus subterfúgios acerca do futuro? Sobra-me a bondade de refutá-los ou a crueldade de concordar. E aí... Aí meu caro ou cara, é com você. Deixe-me ser caridoso e permita-me ter a crueldade de dizer que nada mais resta a não ser abrir espaço para as reticências e contestar em silêncio. A única verdade é a lei que faz o vinho descer lento e gracioso até a taça. Boca aberta para o vermelho e o ouvido para a música de Antonio Pinto e suas notas que se repetem maravilhosas, repetições de embalos viscerais. Além, muito além das expectativas. Como eu, criança, já disse uma vez: somos as expectativas que se depositam nos olhos dos outros e somos nuvens de probabilidades. E Joana já me disse uma vez: “...tem gente que esquece que tristeza não é pecado, não é verdade?..."E o que nos resta? O que nos sobra? Além de um prato de macaxeira com carne de sol no Mercado da Madalena? Subterfúgios? Subterfúgio? Quero farofa não. Sou nordestino, filho de, neto de, mas não gosto de farinha. Foi minha veia pseudo-cosmopolita que falou mais alto. Mais pseudo do que polita. Nossas super-cordas e Heisenbergs. Somos como o Gato de Schrödinger, meio-vivos, meio-mortos. Algo paliativo. E se eu pudesse faze-los seguir viagem pela mesma estrada em que estou agora seria ótimo. Mas como as palavras escritas desconhecem as pensadas e só obedecem à caneta dos Borges, deixo-os com os espaços entre elas. Jamais subestimem os espaços já que são eles que lambem os vazios.

domingo, 30 de março de 2008

Coriolano

Coriolano jamais imaginava que chegaríamos todos àquela hora. Enquanto Orlando era visitada pela grande Elizabeth, o chá de gengibre com limão esfriava na xícara de cabelos de fumaça. Mas estávamos todos lá e éramos sim, os Cândido Lucena. Cada um com suas pupilas profundas, xeretando os cantos da casa aos pedaços. Depois que Raimunda morreu, a casa foi definhando sem que Floro quisesse ao menos demolí-la de vez ou consertar as gretas que apareciam. Começou pela cerca de avelós. As Antônias foram de manhã levar a garrafa de café e depararam com todas as galinhas mortas no terreiro de trás, empapadas no rio de leite cáustico que escorreu a noite inteira espremendo as aves contra a cerca até subir-lhes pelas patas e arder por baixo das penas. Bicando-se umas contra as outras, deixaram como único traço do festim diabólico a fotografia da morte riscada nos olhos, imersos na mescla de sangue e leite. As Antônias nunca mais tiveram coragem de tomar sorvete de nata-goiaba. Floro seguiu também anos depois com a boca cheia de banana e dizendo ao meu avô como é grande a dor da morte. Coisa que mais tarde ele próprio iria constatar, agora que se dissipa por entre as serras e me faz chorar todas as vezes que morre. Sem ter o que fazer enquanto Coriolano e Zé Cândido conversavam, fui vagar entre as redes ainda armadas na varanda ao redor da casa. Mas pertoo suficiente para continuar ouvindo as vozes. A casa era bordejada por um curral à direita e uma estufa a céu aberto. Na frente, um jardim de tocos sobreviventes do desleixo do meu primo. Um zumbido furava meus ouvidos, perguntando coisas que eu não sabia responder. As palavras da varanda perderam o nexo e depois o volume e me remeti ao que Orlando estaria fazendo agora, depois de tantas imperatrizes e reis que já tiveram os anéis beijados por aquela criança de 400 anos. Lembrei-me então da prostituta que pediu para ser crucificada, seus dois amigos algozes e o suspiros dos três. Quando a porta dos fundos da igreja bateu, a deusa continuou pingando letra pelas mãos. Vendo camas, calçadas, imagens, escuros, lembranças sem passarelas. Um estreitamento no pescoço, aquele tremor aleatório, a sensação do fim e a decepção em perceber que era a manhã quebrando a janela que lhe abria portas imaginárias, que não é a morte que alvorece, são as alvoradas que morrem. Adiantando-se às expectativas, um nada indefinível, sem nome, empurrou sua cabeça para dentro da água. Desta vez, a tia não acudiu para livrá-la dos meninos malvados nem a suspendeu pelos cabelos. Por baixo das pálpebras, esfriava-lhe o cérebro dizendo palavras que não existem, ausentava-lhe de substantivos. Pronto para recebê-la. Tentei fazer o mesmo mas não tinha mais braços, apenas cílios que se moviam para diminuir a luz que ricocheteava dentro da minha íris. Voltei então para o sol e percebi que tinha mãos, porque a luz refletia nelas e é somente assim que as tenho. Usei as duas para esfregar meu rosto e todo o resto e cai de joelhos assombrado. Algo se metera entre os silêncios de Coriolano e fê-lo levantar-se da cadeira, foi o meu grito pavoroso com a descoberta de que eu existia.