E agora tudo são ondas, e o sol nascerá nalgum lugar. Mas esperem... Virginia me recriminaria. Todas as virgineas me recriminariam...
E você acha que vai me dizer algo num futuro? E eu irei ouvir atentamente. Enquanto as ondas lançam espumas, pois é isso que elas fazem, em praias. Todas as palavras são metáforas de si mesmas. E ainda assim, a criança que fui um dia, não desceu a ladeira da casa do meu primo bem mais velho, o rugoso, o lacônico, o sem sobrancelhas. Não desci ainda aquela ladeira, só pelo medo de berrar e acordá-lo dos silêncios dele. Então eu fui até a rua sete de setembro ver minha tia ser assassinada a pauladas pelos meninos de rua, somente porque ela escolheu, tanto quanto o vizinho do meu avô também escolheu derreter-se por entre os anos como o leite dos avelós que cercavam a casa dele, na ocasião, moribundos pela morte da mulher, derramados nos pés das galinhas, as que sangravam e cacarejavam desesperadas de noite, sem ninguém para ouvir. Ninguém está para ouvir as árvores que derretem. E o engenho cheio de fantasmas mudos e transparentes, estátuas brancas, cada uma com seu balãozinho de frases. Sentados na piscina de plástico, nenhum de nós, exceto os coqueiros e lagartixas, prestavam atenção ao que elas diziam. Anos e anos que estavam ali, conversando entre si e com os cds emparedados no porão, como as freiras mumificadas em barro de alguma sacristia paulista. Correndo loucas pela avenida cumprida, cumprindo a sina da parede. E o país do impossível dorme agora, deitado ao meu lado, e faz sons, pois é impossível que a Pérsia, terra de colinas brancas, não faça sons quando o vento do Mar Vermelho lambe suas colinas brancas. Terra de colinas macias e mel que escore para fora dos olhos da terra. Nossos olhos, secos, vazios, obscuros e misteriosos. Pérsia. Será possível que um país inteiro venha a viajar, venha a se transpor para outras terras? Que lugar será esse, capaz de albergar um país inteiro? Tenho pena dos seus terrenos, dos seus territórios, invadidos, pois, por um país inteiro. E as ondas vêm, vêem e voltam. Daquela outra janela você verá tudo ocorrer, não dessa, mas daquela. Não daqui, mas de todos os lugares, pois é preciso se espalhar e estar em todos os lugares ao mesmo tempo, sinestésico, atômico, supercórdico. Fora disso não há raciocínio plausível, nem argumento estável, e nem queremos que sejam... Os argumentos; quero dizer. E você ainda acha que me é possível ouvir seus subterfúgios acerca do futuro? Sobra-me a bondade de refutá-los ou a crueldade de concordar. E aí... Aí meu caro ou cara, é com você. Deixe-me ser caridoso e permita-me ter a crueldade de dizer que nada mais resta a não ser abrir espaço para as reticências e contestar em silêncio. A única verdade é a lei que faz o vinho descer lento e gracioso até a taça. Boca aberta para o vermelho e o ouvido para a música de Antonio Pinto e suas notas que se repetem maravilhosas, repetições de embalos viscerais. Além, muito além das expectativas. Como eu, criança, já disse uma vez: somos as expectativas que se depositam nos olhos dos outros e somos nuvens de probabilidades. E Joana já me disse uma vez: “...tem gente que esquece que tristeza não é pecado, não é verdade?..."E o que nos resta? O que nos sobra? Além de um prato de macaxeira com carne de sol no Mercado da Madalena? Subterfúgios? Subterfúgio? Quero farofa não. Sou nordestino, filho de, neto de, mas não gosto de farinha. Foi minha veia pseudo-cosmopolita que falou mais alto. Mais pseudo do que polita. Nossas super-cordas e Heisenbergs. Somos como o Gato de Schrödinger, meio-vivos, meio-mortos. Algo paliativo. E se eu pudesse faze-los seguir viagem pela mesma estrada em que estou agora seria ótimo. Mas como as palavras escritas desconhecem as pensadas e só obedecem à caneta dos Borges, deixo-os com os espaços entre elas. Jamais subestimem os espaços já que são eles que lambem os vazios.